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VALORES HOJE ESQUECIDOS SÃO RESGATADOS NA SESSÃO PIPOCA
A partir da análise de documentários sobre congado e capoeira angola
Reportagem - Liliane Martins
Edição/Revisão - Carem Abreu
A tradição cultural e a sua manutenção têm sofrido um alto impacto com os processos super acelerados da sociedade cosmopolita. Essa influência no comportamento humano foi debatida durante a Sessão Pipoca, do dia 22 de novembro, que teve na roda de conversa o tema “Super aceleração, tradição e Manutenção Cultural”. A Sessão Pipoca é o Cineclube Social da Atos Central de Imagens, acontece no bairro de Santa Tereza (BH/MG), quinzenalmente, as quintas-feiras, a partir das 19hs.
Criada para fomentar as discussões dos temas sociais a partir da produção audiovisual do terceiro setor, a Sessão Pipoca é composta por dois momentos complementares. Nessa sessão, o primeiro momento foi composto por uma exibição de documentários sobre capoeira angola (“Mestre dá Lição”) e sobre congado (“Salve Maria”) e o segundo, por uma roda de conversa. O que ficou claro na análise dos filmes é que hoje ainda se pode observar a preservação de uma cultura que passa de geração a geração, entretanto, é impossível ignorar que muitas dessas culturas tradicionais sofreram grandes modificações ao longo dos anos e que encontram grandes dificuldades para manter viva a tradição popular no seio da comunidade.
Para o assistente social e morador do bairro Santa Tereza, Cláudio Santos “essas tradições religiosas foram muito importantes antigamente. Só que hoje é levado em conta mais a questão do estilo do que a religiosidade em si”. Para Cláudio ainda há uma saída para a propagação da tradição popular, pois “essas tradições requerem conhecimento por parte da população. O melhor caminho de ter acesso a isso é na escola, pois as crianças levarão a cultura popular pra casa e seus pais aprenderão como respeitar essas tradições por meio de seus filhos.”.
DEPOIS QUASE DOIS SÉCULOS DE ACELERAÇÃO PROGRESSIVA
A grande discussão da noite girou em torno do tema super aceleração. Durante o debate foi de senso comum a posição de que a Revolução Industrial (em 1830 a Bélgica e França iniciaram suas industrializações utilizando como matéria-prima o ferro e como força-motriz o motor a vapor) acelerou o cotidiano da cidade com suas máquinas e transportes, cada vez mais rápidos. A Revolução Industrial alterou profundamente as condições de vida do trabalhador braçal, provocando inicialmente um intenso deslocamento da população rural para as cidades. Criando enormes concentrações urbanas; a população de Londres cresceu de 800 000 habitantes em 1780 para mais de 5 milhões em 1880, por exemplo. Até mesmo analistas sociais como Marx vislumbraram no aspecto capitalista a idéia de valor, a partir da economia do tempo, comumente tratado no jargão “tempo é dinheiro”.
Concomitante, a industrialização foi responsável pela origem da estimulação sensorial na sociedade, surgindo assim, o sensacionalismo, uma vez que tudo o que o mercado consumista lançava, tinha como objetivo chamar a atenção das pessoas, através do estímulo de sensações como o prazer e a alegria. “Quando se tem um impacto visual e auditivo tão forte, ele faz mudar a sua relação com o mundo. E esse mundo de hoje, não é mais o mesmo que o de cem anos, ele está muito mais fragmentado, acelerado”, pondera Carem Abreu, moderadora da roda de conversa.
A intensa rotina consumista vivida pelas pessoas, principalmente na atualidade, é denominada por Ben Singer como “Hiperestímulo”. Ben Singer é professor da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, e autor do livro Melodrama and modernity e do artigo “Modernidade, hiperestímulo e o início do sensacionalismo popular”, publicado no livro O cinema e a invenção da vida moderna. A percepção do especialista de que o hiperestímulo torna o mundo está cada vez mais fragmentado é dividida pelo público da Sessão Pipoca: as pessoas estão com dificuldades de se informar, as notícias “brotam” de todas as partes, em muitos casos de veracidade questionada, produtos são comercializados e consumidos vorazmente pela sociedade e o pior a demanda de trabalho faz com que muitas vezes as pessoas se esqueçam de sua vida social, do valor de sua cultura.
Índio, representante da ASMARE (Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável),indignado com a situação, diz: “a super aceleração é algo que já faz parte da sociedade há tempos. Como mudar isso? Se você não acompanhar, você tá fora. É um caminho sem volta”. E o pior é que o envolvimento com a tecnologia faz com que as pessoas ignorem fatos que podem ser valiosos para sua vida, como o reconhecimento e a prática de sua cultura. Mesmo acreditando que a aceleração mundial é um “caminho sem volta” Maria Dulce, integrante do bloco Tambor Mineiro, questionou: “onde estão os nossos valores? às vezes é bom pararmos e darmos uma olhadinha na natureza respirar um pouco de ar puro com menos aceleração. Refletir sobre como é que estamos nos conduzindo neste tempo e olharmos com cuidado o que está acontecendo ao nosso redor.”. Concordando com Maria Dulce, Hélio, proprietário do restaurante de Alimentação Integral Fonte de Minas e morador do Santa Tereza, comentou: “precisamos focar nas coisas simples, deixar o supérfluo de lado. A gente só acelera e esquece de viver a vida como ela deveria ser vivida.”
DEDO DE PROSA
A Sessão Pipoca tem como objetivo fomentar o senso de reflexão em cada participante. Para Hélio a realização do cineclube é fundamental, pois traz as pessoas para o diálogo e as instiga a pensar e refletir, promovendo o encontro entre as pessoas, que hoje, está tão escasso. Cláudio foi mais além, ele afirma que “quando a pessoa se dispõe para vir neste tipo de encontro é porque ela está com necessidade de falar e busca amadurecer esse conhecimento que não a pena guardar para si.”.
Diante desses comentários, a Atos Central de Imagens fica mais motivada em promover esses tipos de encontros, pois apesar da super aceleração mover o mundo de hoje, sempre haverá alguém que desacelerará sua caminhada para pensar como Dulce: ”quando as pessoas se reúnem para conversar, resgatam-se valores que às vezes são esquecidos. Até mesmo para desenvolver um bate-papo que nos faz refletir sobre como as coisas estão sendo conduzidas em nossa realidade. Eu tava sentindo falta disso.”
A próxima Sessão Pipoca acontece nessa quinta, dia 6, a partir das 19h. Na mostra “Olhares Brasil” serão abordados os temas mulher negra, candombe e capoeira angola através da exibição dos documentários “Makota Valdina: um jeito negro de ser”, de Joice Rodrigues (Salvador, BA/2005- produzido com finacioamento da ); “Sonhos de um negro”, de Danilo dos Santos (Serra do Cipó, MG/2006) e “Mestre dá Lição”, de Carem Abreu (BH,MG/2007).
O tema da roda de conversa será “Juventude e preconceito” e terá como facilitadores os representantes dos jovens que estão agitando a cidade:
Negro F, integrante do Coletivo Hiphop Chama e do Grupo Cultural NUC
Neneo, do D.Ver.Cidade Cultural
Warley Mosquito, da AIC (Associação Imagem Comunitária)
Coletivo Hiphop Chama
O coletivo hiphop chama é uma organização politico-cultural autonoma formada e gerida por jovens ativitas da cultura hiphop de grande BH. É um grupo em permanente formação, mobilização juvenil e intervenção comunitária e social.
O coletivo reúne periodicamente e é aberto a participação das pessoas.
Grupo Cultural NUC
Atitude e união. O Grupo Cultural NUC é ação e inovação. Jovens assumindo a frente do trabalho, construindo o futuro, transformando o presente, valorizando e aprendendo com o passado. Criado na comunidade do Alto Vera Cruz, região leste de Belo Horizonte, o Grupo Cultural NUC tem a arte, a cultura negra, a tecnologia e o hip hop como princípios. Inspirados nesses conceitos são realizados projetos e desenvolvidas áreas voltadas para jovens, adultos e grupos artístico-culturais da periferia de Minas Gerais.
D.Ver.Cidade Cultural
Uma associação que desenvolve trabalhos de inclusão social através ações culturais e de direitos humanos para os jovens de comunidades carentes de Belo Horizonte. Existe há 4 anos, é apoiado pelo Centro Cultural UFMG, que cede a estrutura logística para a execução de suas atividades. Neste ano realizou o primeiro Seminário de Políticas Públicas para a Juventude.
Associação Imagem Comunitária (AIC)
Uma ONG de BH, que atua na promoção do acesso público aos meios de comunicação. Desde 1993, a AIC realiza oficinas de comunicação para a cidadania e fomenta a criação de meios de comunicação comunitários. Sua atuação dá-se junto aos mais diversos públicos: população de rua, usuários de serviços de saúde mental, crianças que vivem em vilas e favelas, jovens protagonistas de projetos sociais e culturais, ONGs e grupos de todas as regiões da cidade. A juventude de Belo Horizonte tem sido a principal parceira da AIC na realização de iniciativas pela democratização da mídia. É junto aos jovens que a Associação promove diversos projetos, entre eles a Rede Jovem de Cidadania, uma rede de mídias que atinge todo o Estado de Minas Gerais, e o Juventude de Atitude – séries de documentários sobre os movimentos culturais juvenis das periferias da região metropolitana de Belo Horizonte.
E se preparem para a última Sessão Pipoca do ano, quinta-feira, dia 20 dezembro. O tema da roda de conversa será:” Progresso ???” |
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