JOVENS EM SITUAÇÃO DE RISCO QUEREM DAR A VOLTAR POR CIMA
Reportagem - Liliane Martins
Edição/ Revisão - Carem Abreu
Não é de hoje: a questão da violência tem tirado o sono de muitas famílias. Tanto que ela é considerada um dos principais fatores de desestruturação familiar e risco social. Pensando em um meio de reduzir a criminalidade, a taxa de homicídio e potencializar ações da juventude em locais onde já existe articulação e mobilização comunitária, o CRISP (Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) criou o Programa Fica Vivo! que, atualmente, é coordenado pelo Governo do Estado de Minas Gerais por emio da Secretaria de Defesa Social de Minas Gerais.
Em 2002, o projeto piloto foi implantado na região do Morro das Pedras, região Oeste de BH. O local era tido como uma das áreas de maior índice de violência da cidade. Após seis meses, os estudos apontaram que a violência no local foi reduzida em 47%. A partir de 2003, o programa iniciou de fato suas atividades e ganhou novos ares, atuando em outras áreas do estado. De acordo com os Registros da Polícia Militar, o Fica Vivo! conseguiu, por meio de ações preventivas, reduzir a taxa de homicídios, nas áreas atendidas, em 50%.
O Fica Vivo! atende jovens de 12 a 24 anos em situação de risco social e residentes nas áreas com maior índice de criminalidade de MG. Atualmente, desenvolve suas atividades em 21 unidades em todo estado, além de ser considerado como uma das mais bem sucedidas ações de criminalidade; tanto que já obteve reconhecimento internacional pelos os resultados alcançados.
PARA O ALTO E AVANTE!
Sebastião Everton de Oliveira (Everton) é universitário e mora no Palmital. Ele conheceu o Fica Vivo! em 2003, quando o programa mapeou o bairro e adjacências. Everton já desenvolvia um trabalho na região, o Geração do Terceiro Milênio. A partir desse trabalho foi criada uma parceria com Fica Vivo!. “Eu era do conselho gestor e cedemos espaço para duas oficinas do programa. Criamos um canal de diálogo e eu fui participar das oficinas. Depois de um momento de transição, foi criado o projeto “Fé e Alegria”. Assim, eu me tornei educador junto com outros jovens, além de ser facilitador do grupo de Mobilização e Intervenção Comunitária”, relata o multiplicador.
Abraçar a bandeira da juventude e das causas sociais, antecede o Fica Vivo!, na vida de Everton. Ele conta que tudo começou na Pastoral da Juventude, e de lá pra cá não parou mais. Recentemente esteve em Durban, na África. Entre os dias 17 e 21 de junho, ele representou o programa Fica Vivo! no “Encontro Internacional de Jovens para a Prevenção à Criminalidade nas Cidades”, promovido pelo Organização das Nações Unidas (ONU). “Levei um susto, até hoje a ficha não caiu! Além de ter sido uma viagem internacional, fui apresentar a outros jovens um programa tão relevante como o Fica Vivo! Num primeiro momento achei ruim essa exposição na mídia, mas num segundo, percebi alguns retornos que me fizeram ver o quanto isso é legal. Alguns jovens recortaram a matéria e guardaram, outros jovens quiseram participar dos projetos que eu fazia”.
Everton afirma: a influência do programa em sua vida é total, principalmente na formação da sua identidade. Para ele os projetos sociais para a juventude é um dos principais caminhos para aumentar a participação das pessoas na comunidade. Porém, afirma: há alguns obstáculos e é necessário saber lidar. “Acabo sendo referência na comunidade; essa postura me é cobrada o tempo todo. A questão pessoal e social fica voltada para o plural, para o coletivo. Assim, o medo de errar é muito grande. Além disso, há a questão da limitação financeira. Por mais que você queira atuar na comunidade em programas como esse, eles não dão retorno financeiro como a gente espera. Por isso, muitas pessoas, como eu, acaba procurando outras fontes de renda e o trabalho acaba enfraquecido”.
MÃOS À OBRA
O Fica Vivo! desenvolve seu trabalho com o jovem de modo a sensibilizar e provocar uma reflexão frente a realidade vigente. O grande diferencial desse trabalho é o protagonismo juvenil. Isso significa que são os jovens que pensam em alternativas para intervir na realidade cotidiana, e assim, a valorização da identidade acaba sendo uma forma de agregar mais participantes.
Basicamente, as ações do programas são feitas com oficinas de esporte, cultura, comunicação e inclusão produtiva, além das profissionalizantes. Elas são o passo inicial para milhares de jovens se interessarem por novas atividades. Uma oportunidade de inserção social e de ingresso no mercado de trabalho, e nova perspectiva frente à mundo do crime.
Robson Julio Romoaldo e Fabiana Queiroga fazem parte do Fica Vivo! Ambos participam das oficinas promovidas pelo programa, além de lecionar aos novatos o que aprenderam. Em 2006, Fabiana conheceu o Fica Vivo! e aprendeu a grafitar. Hoje, o grafite é seu sustento. “O programa mudou muita coisa em minha vida principalmente na parte de trabalho. Sou educadora de grafite e faço parte do grupo de mobilização no meu bairro. Se não fosse o programa, talvez estivesse passando dificuldade”.
Robson conheceu o programa por meio de uma amiga, em um momento crítico de sua vida e foi o Fica Vivo! Lá ele recuperou o que a vida lhe tinha tirado: a auto-estima. “Fiquei sabendo das coisas que ela fazia lá e eu me interessei. Hoje continuo na oficina de grafite e também ensino. Pratico basquete e participo do grupo de mobilização de jovens. Se não estivesse aqui eu acho que a minha vida estaria bastante bagunçada, porque quando eu fiquei desempregado eu conheci o programa. Hoje ele é o meu sustento”.
De acordo com a supervisora metodológica do programa, Nádia Rodrigues, o programa está trabalhando para a qualificação dos seus educadores, ampliando a rede e estudando a possibilidade agregar outras instituições e lideranças comunitárias, a fim de discutir a questão da juventude ligada à segurança publica.
E se você quiser participar, pode se “aprochegar”, pois “o jovem não precisa se identificar inicialmente. Confiar é uma relação, muitas vezes, demorada. Na maioria dos casos, esses jovens já cometeram infrações e estão sendo procurados pela polícia e acabam tendo resistência ao chegar, por isso a confiança é um processo contínuo e tem que partir do próprio jovem. Por exemplo, no Fica Vivo! respeitamos o apelido, dessa forma, o programa faz com que o jovem sinta que o núcleo é dele”, relata Everton. “Se algo não te atrai do lado, te atrai do outro. Se eu não tivesse tido essa oportunidade de contato com esses projetos talvez eu não estivesse num espaço sadio hoje”.
CONQUISTAS
Atualmente, mais de 13 mil jovens participam das 600 oficinas, distribuídas em 21 núcleos. No final de 2007, foi anunciada para este ano, a implantação de mais quatro núcleos do Fica Vivo em Belo Horizonte: Betim, Montes Claros e Santa Luzia. Além disso, o Grupo de Intervenção Estratégica deve neste ano pôr em prática a decisão da Secretaria de Defesa Social de intensificar ações para combater conflitos entre gangues em pelo menos 20 áreas de todo o Estado.
Esse Grupo de Intervenção é formado pela diretoria do programa, representantes do Ministério Público, Poder Judiciário e das polícias Militar e Civil. Periodicamente, eles analisam situações de risco nas regiões atendidas pelo programa, definindo ações de repressão qualificada ao crime a serem implementadas.
Conheça as áreas atendidas pelo Programa Fica Vivo: Belo Horizonte: Cabana, Ribeiro de Abreu, Taquaril/Alto Vera Cruz, Barreiro, Conjunto Felicidade, Morro das Pedras, Pedreira Padro Lopes, Santa Lúcia, Serra. RMBH : Betim, Contagem, Ribeirão das Neves (2 núcleos), Sabará, Santa Luzia, Vespasiano. Interior: Governador Valadares, Ipatinga, Uberaba, Montes Claros e Uberlândia.