NEGRITUDE, ANCESTRALIDADE E EDUCAÇÃO: REFLEXÕES NA SESSÃO PIPOCA ITINERANTE

Reportagem - Luna Gomides
Edição/ Revisão - Carem Abreu
“O congado é como se fosse o HIP HOP. O Hip Hop assim, sozinho, não existe. O que existe é o Grafitti, o Rap... No congado é a mesma coisa: o congado é a junção das nove irmandades do Rosário. O candombe, as guardas de congo, as marujadas... todas são integrantes do congado”. Foi dessa forma, descontraída e atual, que o jovem diretor do filme “Sonhos de um Negro”, Danilo Santos, conseguiu passar um pouco de sua vivência para o público da Sessão Pipoca Itinerante.
Ela aconteceu no último dia 07 de agosto, no pré vestibular Educafro Minas, no centro da Capital. O tema da sessão foi “Ancestralidade”, onde foram exibidos os filmes “Salve Maria” de Cida Reis, Junia Torres e Pedro Portela e “Sonhos de um Negro” de Danilo Santos. Como de costume, depois da exibição dos filmes aconteceu a Roda de Conversa a luz do tema “Educação, Negritude e Ancestralidade”. Foram convidados para atuarem como facilitadores Danilo Santos, que além de cineasta principiante, é integrante da nova geração do Candombe da Serra do Cipó e da escritora e presidente da Associação Centro de Referência e Estudo da Tradição Afro-Brasileira Ilê Axé Pilão Odara, Jú Faria.
Depois de uma breve apresentação de como funciona o curso pré-vestibular Educafro Minas e de uma apresentação das atividades promovidas pela Atos Central de Imagens foi iniciada a exibição do documentário “Salve Maria”. Ele resgata a memória da religiosidade de BH mostrando festas e rituais religiosos da capital. O documentário encantou o público com a beleza dos rituais e novos elementos, como as representações de ancestralidade dos rituais que despertou o interesse do público e engrandeceu a Roda de Conversa regada a uma pipoca gostosa. Na sessão foi exibido também o filme “Sonhos de um Negro”, que encantou o público com as particularidades da Comunidade do Açude, da Serra do Cipó, remanescentes de quilombolas ancestrais de MG.
REFLEXÃO TEM GOSTO DE PIPOCA
Após as exibições, a Roda de Conversa começou com uma apresentação rápida das pessoas presentes: equipe da ATOS, coordenação do Educafro, mais 20 alunos do cursinho e os facilitadores. A escritora Jú Faria abriu a conversa falando um pouco dos seus projetos, que em sua maioria trabalham com a cultura afro e introduziu o assunto da lei 10639, recém aprovada. Ela determina obrigatoriedade do ensino da cultura africana e afro-brasileira nas escolas.
Em seguida Danilo falou da sua comunidade, do processo de rápido desenvolvimento em que ela se encontra e explicou de onde veio a idéia do filme. Explicou que ele, e alguns membros da comunidade, estavam percebendo que desde 99, com chegada da energia elétrica no Açude, a juventude estava se perdendo muito da cultura local. Realizar o curta foi a forma encontrada para despertar o interesse dos jovens por um resgate cultural. E era uma boa idéia fazer um filme contando a história da comunidade. Assim, estaria unindo a tecnologia à causa, e seria a solução de integrar os jovens, “transformando-os nos atores que eles diziam querer ser”. O grupo de jovens escolheu como tema a escravidão e a libertação da cultura (representada por eles pelo samba) e foram gravar. Segundo Danilo, a estratégia deu certo e a partir daí os meninos mais novos continuaram praticando as raízes sem perceber.
A partir de então a conversa começou a fluir na Sessão Pipoca: começaram a ser levantadas questões sobre a Ancestralidade e a forma de como a cultura hoje é passada nas comunidades. Observando o primeiro filme exibido, onde tinha cenas de demonstração dessa passagem cultural do mais velho para o mais novo, surgiram questões sobre o futuro e manutenção cultural das comunidades. Jú Faria levantou que, apesar da idéia de desvalorização das tradições culturais, impostas pela aceitação indiscriminada das novas tecnologias, ainda não foram suficientemente fortes para impedir a passagem (manutenção) dessas tradições culturais ainda tão fortes no berço das culturas populares. Danilo fez suas ressalvas: para ele, de acordo com a sua comunidade, as coisas acontecem muito mais naturalmente do que por um ritual ou obrigatoriedade.
Esclarecimentos sobre os termos dos rituais do congado foram feitos pelos facilitadores da noite e uma discussão sobre a Educação puxada pelos alunos do cursinho e enriquecidas grandiosamente pelas Educadoras da Educafro e pela escritora Jú Faria, aconteceu em cima da nova lei que trás as escolas a obrigatoriedade do ensino Afro-brasileiro. O próximo Cine Clube Social Sessão Pipoca acontecerá no dia 18 de setembro, na sede ATOS Central de Imagens, no bairro Santa Tereza: aguarde a programação!